A corrupção do poder

Achamos que muitas vezes a união da igreja (vamos entender “igreja” como corpo de Cristo; não a instituição religiosa denominada de igreja) com o estado é algo favorável e bom; mas não o é quando a igreja se deixa corromper pelo poder; quando acha que pode atuar além da graça, e determinar o que se pode e o que não se pode fazer; e que impor leis pelo poder do estado. A igreja tem um papel fundamental na sociedade, ela como instrumento de Deus, como expressão da graça e da misericórdia de Deus neste mundo, tem um papel fundamental; pode e deve usar o estado em favor das pessoas e da sociedade; mas não pode se deixar corromper pelo poder e domínio que o estado deseja, muitas vezes exercer sobre a mesma, tentando corrompê-la pelo poder.

A graça e a força não fazem parte do mesmo princípio e fundamentação de vida que foi proposto por Jesus. Podemos ler em Lamentações de Jeremias, Lm 3:22-23 (BEARA) “22 As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; 23 renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.”. E Paulo escrevendo aos irmãos de Roma, expressa o seguinte: Rm 6:1-2 (BEARA), podemo ler: “1 Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? 2 De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?”.

Onde existe a graça manifesta e a misericórdia não existe a lei, a força, e nem a imposição.

Compreendendo a igreja, o seu papel, tendo o entendimento de sua atuação quanto ao social, quando a ajudar a comunidade onde está, e podendo ser um instrumento de integridade, de justiça social; pode ter no estado a fonte de recursos para dar melhores condições ao meio onde está inserida. Mas, quando faz isso, pode se deixar corromper, pode querer envolver no estado, e desejar usar o estado para usá-lo em seu benefício e aparente interesse, abandonando a graça e a misericórdia.

Como? Quando fazemos lei, quando impomos leis, podemos, pensar que leis morais, podem mudar a sociedade; mas não pode. Podem ser criadas leis que condenam o adultério; mas não será possível impedir a luxúria. Podem ser criadas leis severas contra a homossexualidade, ou impedimento do casamento homosseuxal; mas a sua existência ou não, não impedirá o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Podem ser criadas leis contra o aborto; mas elas não impedirão o aborto. E assim, podem ser criadas; muitas e muitas leis “morais”; mas estas não impedirão que atitudes imorais; que destroem uma sociedade, a família, os relacionamentos sejam atuantes (mesmo que isto represente o pensamento de alguns). A igreja pode se deixar se corromper e querer atuar na força; mas quando a mesma faz isso, ela está se corrompendo com o poder do estado.

Precisamos compreender a graça, a misericórdia, o papel da igreja, quem somos e como devemos viver neste mundo. Quando nos posicionamento como igreja, como membros do corpo de Cristo, como representantes do reino de Deus, não teremos a acolhida em um estado corrupto. Não seremos aceitos; não porque não concordamos e gritamos contra imoralidade; mas sim; porque manifestamos a graça e a misericórdia de Deus; porque revelamos a luz, e quando manifestamos luz, tudo que é contrário a natureza de Deus fica em destaque. E quanto estas atitudes estão em destaque; isto incomoda os corruptos, os transgressores. Não porque condenamos; mas porque as suas obras ficam em destaque e isto incomoda; e se há o incômodo; então passa a existir a rejeição; mas antes da rejeição, existe a tentativa de corrupção, onde valores, onde aspectos de integridade; são colocados a prova.

A igreja precisa compreender o limite da parceira, do andar junto com o estado. Tendo a consciência que pode e deve usar o estado em benefício da sociedade; mas não pode se deixar corromper pelo poder que o estado tem. Ela não existe para controlar nem condenar; mas para revelar  a vida e a graça de Deus.